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Júlio Soares, Seabra e Rafael

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A popular trindade do Fado é simplesmente assim: guitarra, voz e viola. Rigorosamente tocado e expresso sob a tenaz catadupa dos peregrinos sentimentos com que a vida vai polvilhando a alma, ora pairando sobre a decorrente realidade, ora rebuscando a memória que a saudade implanta, o Fado constitui sem dúvida alguma a lídima oração que proporciona consolo e íntima satisfação ao irmanar harmoniosamente tristeza e alegria.

Aprecie-se o devotado empenho na entrega dos tocadores à lide musical. Avalie-se, pela empolgada pose do intérprete, como é possível levitar algures no delicioso oásis extra-terreno que ninguém sabe aonde é e como é. Estava-se num dos serões fadistas do Grupo Dramático Monte Aventino, sexta-feira, 15 de Junho de 2007, numa sala cheia de fadistas da mais diversa dimensão, amadores, profissionais, apreciadores e dilectos amigos de uma velhinha colectividade que resiste estóica aos ventos da abrupta mudança actual.

Júlio Soares cultiva o fervoroso estilo «mauriciano» e no ensejo, com versos de Fernando Alves, aproveitou para cantar à memória do mestre, excelentemente acompanhado por Seabra e Rafael, que formam no momento a mais antiga parelha portuguesa que se mantém impecavelmente unida ao longo de três décadas e pico. Sinceramente, apreciei e, sem mais delongas, gostei de ter fruído mais uma noitada de bom Fado. E que bem me soube a «receita» e o presunto na companhia do Alfredo Guedes.

António Torre da Guia

MEU PRINCÍPIO e MEU FIM

Nasci, foi registado que nasci
Na cidade do Porto, em Portugal,
E se pois pra nascer nada pedi
Para morrer só quero tal e qual!...


Ainda lembro a luzinha divinal
Que me cobria plena de candura
Entre o abraço quente da ternura
No aconchego de um amor total,
Mas também recordo o brusco mal
Que inocente sofri de quem na vida
Lutava em amargura padecida,
Quiçá para surgir agora aqui
A descrever o que então senti,
Poeta florescente de chão raso
E só talvez por este mero acaso
Nasci, foi registado que nasci.

De prazer e de dor adolesci
Como intenso agora vou vivendo,
Mau-grado pelo tempo já descendo
Da imposta montanha que subi,
De regresso ao sonho e por ti,
Ó lídima Musa, intentarei
Esquecer as mágoas que passei
Em vão no inóspito estendal
Do mundo, enegrecido lodaçal,
Que me traiu e obrigou a recolher
Ao berço da origem do meu ser
Na cidade do Porto, em Portugal.

Se de novo nascesse e colossal
O que desejaria eu alcançar,
Que modelo deveria adoptar
Para em êxtase feliz viver real ?...
Não lobrigo que haja algum sinal
Que me inspire lograr algum desejo,
Porque à vida sequer o céu invejo
Ou até os prazeres que já vivi
Que de sobra mil vezes repeti;
Almejo e com fervor pretendo sim
Nada pedir até chegar meu fim
E se pois pra nascer nada pedi.

Do futuro que terei e venha aí
Meu desígnio passa pelo sonho
De superar o Inverno medonho
Que desconheço mas já preveni
Sob o esplendor de minha Musa
Na Poesia, deusa inclusa
Ao meu dilecto deus, o Movimento,
Trindade onde colho o alimento
Da paz dos dias em ponto final,
E como prá vida tive passaporte
Sem temer enfim a lei da morte
Para morrer só quero tal e qual.

António Torre da Guia

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